segunda-feira, 18 de julho de 2011

Qual a cor do amor?

Primeiro é o beijo quente, procurado
A língua procurando a outra
E vendo se a boca combina
Se combina o beijo
Meio caminho andado


Depois é a pele
Se a textura vale
O pelo com pelo
Ou o pelo com o seu pelo
Ou os pelos com meu pelo
Ou o medo


Depois o cheiro
Um procura no outro
O cheiro de colônia ou
O cheiro de prazer
E os dois se embriagam
Ou vão até o banheiro


Depois a cor
O amor tem cor?
Cada amor tem uma cor
Cada beijo tem uma cor
Cor de caramelo doce
Cor de madrugada fria.


Cazuza

*A letra "Qual a cor do amor?" foi encontrada por Lucinha Araújo e pelo jornalista e compositor Ezequiel Neves (morto em julho do ano passado) em uma pasta verde que Cazuza guardava sobre seu armário.
Fragmento tirado da reportagem feita pelo jornal O Estado de São Paulo.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

das Mulheres


sim, sou mística sim,
sou mística, batizada na igreja protestante,
concomitantemente pagã, panteísta por instinto,
às vezes ibeji, Rosinha da Praia, noutras vezes pombagira,
em noites de lua cheia faço lá minhas reverências,
sou Lilith, feiticeira das bravas.
mas nunca sacrifico animais,
prefiro os bodes aos que desmerecem a condição humana,
sacrifico as daminhas de unhas francezinhas,
os pobres Jeremias, os que vedam O tesão,
os que ilusioramente enfraquecem o forte,
os que não fazem uso do cérebro, tampouco do coração,
os que menosprezam a linguagem do corpo,
os que colocam uma mordaça na bocarra da alma,
os que fogem do sim com o não,
os que fogem do não com o talvez,
os que com o talvez trocam de veste e te
emprestam a própria camisa de força,
os que chegam com as idéias prontas,
passadas de geração à geração.
ah! a liberdade de ser diversamente o que se é!
sem preâmbulos, reticências, sem doses comedidas,
sem as faces empilhadas no mausoléu da prudência,
todas as minhas mulheres em todas as esquinas,
Isaura na cópula, Maria diante da bacia d’água,
Marta dona de casa, Joana d’Arc na vida prática,
mãe canguru com o mundo em seu marsúpio.
minhas mulheres são assim, todas passionais,
gostam do batuque, da flauta hipnótica,
do interior rubro, do exterior atípico,
no pescoço uma mão lascivamente máscula,
nos lábios o lilás que um beijo agressivo traz,
possuem serpentes na cabeça e subindo pelas pernas,
Marias Madalenas, Teresas Batistas Cansadas de Guerra,
Sabinas, Sylvias, Bovarys, Hildas, Medéias,
até as Pollyannas vez em quando me demandam.
minhas mulheres erguem arcas de intempéries,
livram-se elegantemente das correntes enferrujadas,
levam na cabeça toda água do Pacífico dentro dum único vaso,
minhas mulheres também são salamandras,
alimentam-se de fogo e alimentam os seus com a mesma chama,
Anas, Ísis, amazonas, ninfas, Clarices, Diadorins, Afrodites,
minhas mulheres são assim, meio fêmeas, meio machas,
mas jamais homenzinhos, mulherzinhas só em tempos
de talhos inevitáveis, entrementes vão da dor ao
desprezo como um raio, cicatrizam suas
feridas como felinas, com a saliva da própria língua.
são suas bisavós, suas avós, suas mães, suas filhas,
mas antes são delas mulheres distintas,
minhas mulheres são todas vocês,
que assim como eu estafadas estão do encargo
de serem ininterruptamente,
Mulheres.
Isadora Krieger

Este poema foi usado para apresentar a nova coleção de brincos  Belle Époque – Egito em uma performance no lounge do Museu Afro Brasil, momentos antes de iniciarem os desfiles da Casa de Criadores. Coleção esta de Christopher Alexander.